O outro pé da sereia / Mia Couto


Não é uma resenha sobre o livro, pois não sou capacitada para isso.
Só  minha opinião sobre ele.
Para começar, uma leitura não muito fácil, embora no mesmo bom e velho português nosso de cada dia, já que o autor é moçambicano.
Claro, para mim, que o livro é uma pérola para quem aprecia o estilo. Nunca li nada do autor, Mia Couto, então não posso fazer nenhuma comparação com outro livro seu.
A leitura fluiu bem, embora sem muita emoção, porque a curiosidade pelo desfecho do destino da santa me envolveu e fiquei o tempo todo esperando que esse pé tivesse um papel importante na história.
A história, mesclando passado e presente em torno do mesmo objeto, a santa, confundida com uma sereia, é interessante e rica. O autor tem um bom humor sutil.
Mas os personagens me pareceram muito estranhos, bem rasos, meio sem vibração.
O jesuíta português D. Gonçalo da Silveira sai de Goa, na Índia, para chegar ao reino do Monomotapa, na África, a fim de converter seu imperador à fé cristã.  Esta é a única parte não ficcional da história. Pois realmente D. Gonçalo da Silveira existiu e foi mesmo de Goa a Moçambique, onde viveu por alguns anos, como catequista. (Aqui)
Nessa viagem, ia com o jesuíta uma imagem de Nossa Senhora, que foi motivo de cobiça já dentro do navio e onde foi violada por um escravo, que foi pego em flagrante cortando a imagem, da qual já tinha serrado um dos pés. Nimi Nsundi foi preso no porão do navio e o pé da imagem nunca foi encontrado. Para o escravo, ela era Kianda, a deusa das águas. O ato de lhe serrar os pés era para deixá-la livre para as águas.
Tudo é muito fascinante no livro, mais do que uma ficção, me pareceu uma brincadeira para o autor,  misturar figuras tão distintas e estranhas.
O nome dos lugares: Vila Longe e Antigamente, são significativos para a história.
Os personagens são curiosos, imaginei-os num filme, alguns bem caricatos.
A arrogância dos brancos, chegando em terras da África, pretensamente para ensinar, mas querendo mesmo modificar a essência de um povo é presente no livro.
Só lendo para entender o contexto das frases abaixo, mas acho que elas existem por si mesmas.
Boa leitura, para quem se arriscar.
  • Em todo o mundo é assim: morrem as pessoas, fica a História. Aqui, é o inverso: morre apenas a História, os mortos não se vão. (O Barbeiro de Vila Longe)
  • A melhor maneira de fugir é ficar parado.
  • A melhor maneira de mentir é ficar calado.
  • A mulher regressava à sua condição de esposa: retirou-se, convertendo-se em ausência.
  • Não é o corpo que me pesa, é a alma. A velhice é uma gordura na alma.
  • Aprenda a desconfiar de homens que contam boas histórias.
  • Não é a nossa raça que os atrapalha: é a cor da nossa alma que eles não conseguem enxergar.
  • Nascemos e choramos. A nossa língua materna não é a palavra.O choro é nosso primeiro idioma.
  • Nós temos de lutar para deixarmos de ser pretos, para sermos simplesmente pessoas.
  • Agora estou certo: ser negro não é uma raça. É um modo de viver. E esse será, a partir de agora, o meu modo de viver.
  • Não são os grandes traumas que fabricam as grandes maldades. São, sim, as miúdas arrelias do cotidiano, esse silencioso pilão que vai remoendo a esperança, grão a grão.
Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu em 5 de Julho de 1955 na cidade da Beira em Moçambique. É filho de uma família de emigrantes portugueses. 
 Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques para estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo. Em 1985 abandonou a carreira jornalística.(Google)

10 comentários:

Beth/Lilás disse...

Oi, Lúcia!
Este eu não li, mas pelo que notei em seus comentários, parece-se muito com os dois outros que li, ou seja, acho que é um estilo dele e que mantém em seus vários livros.
Admiro-o bastante, mas não é meu escritor predileto, pois não curto muito este tal estilo.
Prefiro-o em poesias, diz mais à minha alma.
um super abraço carioca cara amiga.

Georgia Aegerter disse...

Lucia, ele é meu autor preferido em se tratando de uma autor mocambicano.

Este é mesmo o estilo dele. Calmo e cheios de segredos, personagens opacos sem muito movimento.

É diferente ler Mia, meio estranho, mas talvez ai esteja o segredo porque ele é Mia Couto.

Este dele eu ainda nao li, deve ser novo.

Bjos querida e te deixei no FB o endereco do Jürgen.

Obrigada

✿ chica disse...

Falaste muito bem sobre o livro e apesar de não o ter lido, deu pra ter uma ideia muito boa! beijos,chica

Heloísa disse...

Lúcia,
Gostei muito das frases que você pinçou, embora o tema não tenha me atraído.
Mas, como nunca li nada do autor, sua dica vai ser útil.
Beijo.

Pandora disse...

Amo o Mia, indico e recomendo. Você é a segunda pessoa que fala desse livro e me deixa louca de vontade de ler. Acho a sensibilidade brasileira muito semelhante a sensibilidade africana.

Denise disse...

Oi, Lúcia!
Falou em livro eu vim catar, hehe! Estou com um livro do Mia Couto esperando por mim na estante... comprei em novembro passado: A Varanda do Frangipani. Então tb não tenho opinião sobre seus livros. Achei interessante este do qual falaste. Desse autor só vi um vídeo de uma palestra... achei mto pertintente tudo o que ele disse... Depois que ler meu livro te digo o que achei dos escritos dele :) Bjs

Palavras Vagabundas disse...

Lucia,
morro de amores por Mia Couto e esse livro em especial me deixou um impacto muito grande.
Mia é sempre um autor que permite vários níveis de leitura,indo do monótono ao te deixar sem folego! O outro Pé da Sereia, no meu caso, foi de tirar o folego.
Já o resenhei também pelo viés da colonização. Mas sempre recomendo a leitura desse autor.
bjs
Jussara

Cristina disse...

Olá, Lucinha!"Bão" ai?

Conheço as poesias de Mia Couto (Raiz de Orvalho), mas nunca o li em prosa.
Uma professora minha dizia que sua personalidade ímpar na narrativa, faz todo o diferencial (ela o amava).
O que você escreveu confirma, fiquei curiosa. Já li alguma coisa sobre o livro a pouco tempo.
Tempo? Este não tenho...Há uma tonelada de livros me aguardando!
Beijão quase mineiro.

ML disse...

Frases do seu post que eu AMEI:
1. A melhor maneira de mentir é ficar calado;
2. A mulher regressava à sua condição de esposa: retirou-se, convertendo-se em ausência;
3. O choro é nosso primeiro idioma;
4. Não são os grandes traumas que fabricam as grandes maldades. São, sim, as miúdas arrelias do cotidiano...

bjnhsssssssssssssssss

Day disse...

Oi Lúcia, como vai?
Cheguei no seu blog agora e me deparei com o Mia Couto, um escritor que admiro muito!!
"O outro pé da sereia" ainda não li, mas li outros dele e fiquei completamente encantada com sua escrita. Adoro essa inovação que ele faz na língua, lembra-me muito o nosso Guimarães Rosa. Conheço apenas o Mia prosador, mas já ouvi dizer que como poeta ele é excelente. Se na prosa ele consegue ser tão lírico, já até posso imaginar como será na poesia.
Um abraço.