Enterrar ou cremar?

Embora saibamos que a única certeza da vida é a morte, ela parece que sempre nos pega de surpresa.
No dia do velório do meu irmão, ao lado tinha o velório de um garoto de 10 anos.
Qual o "pior"? Qual a dor maior? Quem sabe dimensionar? Quem sabe "escolher" entre um homem de 61 anos e um menino de 10 anos? Os dois eram igualmente importantes, amados, queridos.
Perder meu pai, há 17 anos, teve a sua dor e a sua resignação. Perder um irmão me deu mais certeza da inexorabilidade do destino.
Foi a primeira pessoa mais próxima a mim que quis ser cremado e a primeira cerimônia que vi.
Nunca me agradou a ideia de ser enterrada (agrada a alguém?!), mas também não sei se prefiro ser cremada.
Como não sabia nada sobre a cremação, fui me informar. 
Tudo que encontrei foi baseado, deu-me a impressão, em um único informativo, vi muita repetição.
Aprendi que a cremação é muito antiga, primeiramente foi usada como uma maneira de não deixar que animais comessem o cadáver. Então queimavam-no.
Para algumas religiões, o fogo purifica e liberta a alma. 
E para outras, como o judaísmo, a alma se purifica lentamente, à medida em que o corpo se decompõe.
Para os espíritas, a incineração deve acontecer após 72 horas, que é o tempo que a alma precisa para se separar do corpo.
A prática da cremação também já foi obrigatória, em alguns países, quando havia epidemia, pois só assim havia um bom controle sanitário. E também já foi lei por não haver mais lugares para enterrar os mortos, em países como China e Japão.
Aos poucos, pelo mundo foi se tornando prática normal  e sem restrições religiosas, a não ser entre os judeus e os muçulmanos.
No Brasil é preciso que a pessoa registre em cartório o desejo de ser cremado, ou então que o parente mais próximo testemunhe o desejo do morto.
O primeiro crematório do Brasil foi na cidade de São Paulo, no ano de 1974.
Atualmente praticamente todos os estados brasileiros dispõem de um crematório, sendo que a Grande São Paulo conta com três deles.
O processo todo me pareceu asséptico, frio demais. Para mim, a cremação acontecia logo após o caixão sair de nossas vistas. Há quem informe que espera-se que tenha vários corpos para serem cremados, por medida de "logística" (eu que digo, por isso as aspas) na alimentação do forno. 
No mínimo se esperam 24 horas para a cremação. Enquanto isso, o corpo fica em câmera frigorífica. E é incinerado junto com o caixão, de onde se retiram os metais e vidro (se houver visor) para que não explodam. A fumaça do incineramento é sem cheiro, por passar por vários processos. 
Nem dá para imaginar que se sentisse cheiro de carne humana pelos ares, mesmo. 
Quem quiser conhecer um forno, o Google mostra.
4 dias após a cerimônia, os filhos receberam as cinzas do Carlos. Uma parte, ele quis que fosse espalhada pelo quintal da casa dos nossos pais, onde ainda mora minha mãe. 
E outra parte espalhada ao vento na Serra do Cipó, um dos lugares preferidos dele para passeios. 
(Daqui:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Cachoeira_Grande_na_Serra_do_Cip%C3%B3.jpg)

Ainda não estou em mim. Um peso enorme me abateu, não só pela morte em si, como pela tristeza da minha mãe em ver um filho ir-se embora. 
Mas se deixar a dor tomar conta, o que será de mim?
Nada mais certo do que a vida continuar. 
Agora é tocar pra frente e curtir muito todos os meus irmãos que estão comigo. Mesmo com nossas divergências de opinião, mesmo como nossos "arranca-rabos" que duram uns minutos, mesmo com as indelicadezas que possamos cometer. Sempre achei que não viemos por acaso, do mesmo pai e da mesma mãe.
E por que não gosto de fotos, não tenho nenhuma minha com o Carlos. Fica a saudade no coração e a imagem dele na minha lembrança. Claro que tenho fotos dele, mas não comigo. E tenho um auto-retrato, com dedicatória, que depois mostro aqui.
Há dias que bate uma saudade incontrolável e a dor volta, sem trégua. Mas a vida tem que seguir e vamos continuar rindo e nos divertindo, como no casamento de uma sobrinha, sábado. Juntos superaremos nossa dor. E Carlos será sempre uma lembrança boa.
Não sei por que, esta música é a única capaz de me comover agora. Nem sei se ele gostava, mas muito provavelmente sim, pois era um bom apreciador. Não fala de perdas, mas separações. Talvez a melodia me comova mais do que a letra.

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15 comentários:

SHEYLA - DMulheres disse...

Lúcia,

Minhas condolências e desejo paz ao seu irmão. Lindo texto e tenho essas dúvidas também. Fui ao enterro de minha tia que sempre pediu para ser cremada. Achei bem mais "light" do que ver aquele caixão sendo baixado na cova e coberto por terra. Então, espero que a dor no seio de sua família seja breve.
mil bjos no coração.

Palavras Vagabundas disse...

Lucia, minha família toda está optando por cremação. E penso como a Sheyla (minha prima), me sinto mais confortável do que ver o caixão ser coberto por terra. As cinzas são capítulo à parte, meu marido quis que suas cinzas fossem espalhadas no bairro em que nasceu e em um lugar específico. Como isso não tem data, só o fizemos seis meses após a sua morte. Foi um conforto! Pudemos nos despedir sem drama e com muito amor, apesar das lágrimas.
Saudades sempre haverá, mas o tempo ajuda a amenizar a dor.
Tenha uma ótima semana e fique com Deus
bjs
Jussara

✿ chica disse...

Taí algo que não pensei...(Ou não quero pensar...) Sempre tive medo de fogo, não sei se quero me contorcer...( sei que não é, mas é a imagem que tenho, como uma minhoca queimada)..
Já aquela pá de terra caindo sobre o caixão é duro de ouvir também...

Não sei..Preferiria simplesmente ser jogada ao mar! Sem cerimônia alguma! Isso pra mim, claro. Para os meus,nem quero pensar, afasto essa imagem!


Bem, falei ,falei e nada disse... Quero apenas dizer que desejo que fiques bem, que essa saudade não te machuque tanto! beijos,chica

manuel marques Arroz disse...

Paz á alma do seu irmão.

Beijo.

Lulú disse...


Olá Lúcia.
Que Deus lhe dê a conformação e o descanso eterno para seu irmão.
No entanto gostei de saber algo sobre cremação. Desconhecia qualquer coisa sobre o assunto.
Fique com Deus.
Beijos
Maria Luiza (Lulú)

Calu disse...

Lucia,
eu e meu marido já fizemos a opção em cartório.Acho profundamente doloroso acima de tudo,vermos aquele caixão baixando no interior da terra.Em todas as vezes, me sentia uma ingrata por deixar aquele ente querido entregue à terra.Pode ser bobagem,mas sinto assim.
A saudade doída a cada dia vai suavizando com o tempo,mas não desaparecerá jamais.
Sabendo-o presente nos lugares que amava, vcs irão abrandar seus corações devagarinho.
Fiquem com Deus.Boa semana.
Bjos,
Calu

Beth/Lilás disse...

Lúcia, querida!
Dá pra ver claramente a sua dor ainda estampada no rosto, através das fotos do Face, pois embora participante do casamento de sua sobrinha (não há como cancelar um evento desse tipo nos dias de hoje) vê-se que não está bem, seu sorriso é triste, natural, afinal a dor ainda reina em volta de vocês todos.
Eu nunca pensei sobre cremação ou minha morte, mas depois da morte de Glorinha em que ela foi cremada, passei a pensar mais sobre isso.
Ainda não me decidi, mas já conversei com meu marido sobre isso e acho que teremos que tomar uma decisão.
Muita força pra você e sua mãe nestes dias tão doloridos.
um abraço forte da amiga
Beth Lilás


Liliane Blog Sonhar e Ser disse...

Lúcia.
desejo força e paz neste processo difícil.
só isso.....
um abraço com carinho.
bjs.

Meri Pellens disse...

Eu gostaria de ser cremada mesmo. Se Deus permitir serei. Mas claro, estando mortinha de vez, pois tbm tenho pavor de fogo como a Chica.
Beijo, Lúcia, e fique com a paz de Jesus. Tudo vai passar.

Valéria disse...

Oi Lúcia!
Nooossa esta música é muito linda e triste!
Ah, sempre pensei em ser cremada, mas ao meu redor todos ignoram, morro de medo de acordar e está dentro do caixão. É um pânico que tenho. Não sabia que podemos deixar registrado em cartório.
Este momento é mesmo de muita dor, mas o tempo vai deixando a saudade ser aliviada por boas recordações. A dor da mãe que perde um filho é mesmo imensa, ela deve estar muito fragilizada. Que Deus lhe traga alento e paz!
Beijinhos e uma semana abençoada!

Misturação - Ana Karla disse...

Lúcia, sinto muitíssimo pelo seu irmão. Que ele esteja em paz.
Eu sempre digo aqui para o meu marido que quero ser cremada, não suporto pensar em ser enterrada.
Semana de muita paz pra você e os seus.
Xeros

Luma Rosa disse...

Não é fácil e sinto muito por você e sua família. A morte é algo que não temos como fugir e de uma forma ou de outra, iremos para o destino que Deus instituiu. Pessoalmente eu preferia ser cremada, mas sem o velório ou que seja somente entre os familiares.
Você precisa ficar bem. Pense no sofrimento que seu irmão foi poupado e que ele viveu bastante!!
Beijus,

Luciana disse...

Lucia, sinto muito pela sua perda.
Beijo

ML disse...

Que música linda, Lucia!

Agora, é dar muita força pra mãe de vocês e seguir em frente. Família é o mais importante, um porto seguro.

bjnhs pra vocês.

Georgia Aegerter disse...

Oi querida,

imagino que há muito o que se falar e muito ainda o que se sentir.

Se vc quiser me enviar por email uma foto sua e a do teu irmao, eu faco uma montagem pra vc e ai vc terá a foto junta com teu irmao. depois vc poderá imprimí-la ou revelá-la e colocar numa moldura. Manda vou gostar de te fazer este presente.

Grande beijo