De repente 60 ou 2x30 (Estranhos no espelho?)

 A minha amiga Beth, a Lilás, que é também amiga de muitos que passam por aqui, já postou esse texto em seu blog, neste link:   http://supremamaegaia.blogspot.com.br/2011/12/para-os-amigos-que-ja-chegaram-ou-estao.html. Dá uma passada lá e veja se comentou. Além do texto, tem um áudio muito bom. 
Encontrei o texto e quis postá-lo para reanimar-me. (reencontrei, pois além de lê-lo no blog da Mãe Gaia, já o tinha recebido por e-mail e agora o li no FB).
Diz a autora:
"De forma despretensiosa, inscrevi um texto no concurso Prêmios Longevidade Bradesco Histórias de Vida.
Estou chegando de São Paulo, onde fui participar da premiação.
Mandaram um motorista me buscar e me trazer e fiquei num super-hotel nos Jardins, acompanhada de meu príncipe consorte rsrsrssr.
Entre quase 200 concorrentes conquistei o 3o lugar, com direito a troféu e diploma.
Mas, sinto como se tivesse recebido o Oscar, pois os primeiros colocados foram jovens que trabalharam por alguns anos para escrever histórias que mereciam ser contadas.
Meu texto foi o único produzido pela própria protagonista.
O tema central era o relacionamento inter-geracional.
Quase caí da cadeira quando Nicete Bruno, jurada especial me perguntou: "Você é a Regina? Queria muito conhecê-la. Adorei seu texto!!"
Tive, ainda, o privilégio de ser fotografada ao lado da convidada especial, Shirley MacLaine.
É muita emoção, que gostaria de compartilhar com vocês."

(Aqui, uma reportagem sobre a premiação e abaixo, uma foto da autora com Nicete Bruno: http://www.espacovivamais.com.br/noticias/mostrar/2054)
(E indo e vindo, "descobri" um blog da Regina: http://asnovassessentonas.blogspot.com.br/
 DE REPENTE 60 (ou 2x30)
Ao completar sessenta anos, lembrei do filme De repente 30, em que a adolescente, em seu aniversário, ansiosa por chegar logo à idade adulta, formula um desejo e se vê repentinamente com trinta anos, sem saber o que aconteceu nesse intervalo.
Meu sentimento é semelhante ao dela: perplexidade.
Pergunto a mim mesma: onde foram parar todos esses anos?
Ainda sou aquela menina assustada que entrou pela primeira vez na escola, aquela filha desesperada pela perda precoce da mãe; ainda sou aquela professorinha ingênua que enfrentou sua primeira turma, aquela virgem sonhadora que entrou na igreja, vestida de branco, para um casamento que durou tão pouco!Ainda sou aquela mãe aflita com a primeira febre do filho que hoje tem mais de trinta anos.
Acho que é por isso que engordei, para caber tanta gente, é preciso espaço!
Passei batido pela tal crise dos trinta, pois estava ocupada demais lutando pela sobrevivência.
Os quarenta foram festejados com um baile, enquanto eu ansiava pela aposentadoria na carreira do magistério, que aconteceu quatro anos depois.
Os cinquenta me encontraram construindo uma nova vida, numa nova cidade, num novo posto de trabalho.
Agora, aos sessenta, me pergunto onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho todas as manhãs.
Tive o privilégio de viver uma época de profundas e rápidas transformações em todas as áreas: de Elvis Presley e Sinatra a Michael Jackson, de Beatles e Rolling Stones a Madonna, de Chico e Caetano a Cazuza e Ana Carolina; dos anos de chumbo da ditadura militar às passeatas pelas diretas e empeachment do presidente a um novo país misto de decepções e esperanças; da invenção da pílula e liberação sexual ao bebê de proveta e o pesadelo da AIDS. Testemunhei a conquista dos cinco títulos mundiais do futebol brasileiro (e alguns vexames históricos).
Nasci no ano em que a televisão chegou ao Brasil, mas minha família só conseguiu comprar um aparelho usado dez anos depois e, por meio de suas transmissões, vi a chegada do homem à lua, a queda do muro de Berlim e algumas guerras modernas.
Passei por três reformas ortográficas e tive de aprender a nova linguagem do computador e da internet. Aprendi tanto que foi por meio desta que conheci, aos cinquenta e dois anos, meu companheiro, com quem tenho, desde então, compartilhado as aventuras do viver.
Não me sinto diferente do que era há alguns anos, continuo tendo sonhos, projetos, faço minhas caminhadas matinais com meu cachorro Kaká, pratico ioga, me alimento e durmo bem (apesar das constantes visitas noturnas ao banheiro), gosto de cinema, música, leio muito, viajo para os lugares que um dia sonhei conhecer.
Por dois anos não exerci qualquer atividade profissional, mas voltei a orientar trabalhos acadêmicos e a ministrar algumas disciplinas em turmas de pós-graduação, o que me fez rejuvenescer em contato com os alunos, que têm se beneficiado de minha experiência e com quem tenho aprendido muito mais que ensinado.
Só agora comecei a precisar de óculos para perto (para longe eu uso há muitos anos) e não tinjo os cabelos, pois os brancos são tão poucos que nem se percebe (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho após os setenta anos).
Há marcas do tempo, claro, e não somente rugas e os quilos a mais, mas também cicatrizes, testemunhas de algumas aprendizagens: a do apêndice me traz recordações do aniversário de nove anos, passado no hospital; a da cesárea marca minha iniciação como mãe e a mais recente, do câncer de mama (felizmente curado), me lembra diariamente que a vida nos traz surpresas nem sempre agradáveis e que não tenho tempo a perder.
A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu, lembro de coisas que aconteceram há mais de cinquenta anos e esqueço as panelas no fogo.
Aliás, a memória (ou sua falta) merece um capítulo à parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar o nome de alguém e começa a brincadeira de esconde-esconde. Tento fórmulas mnemônicas, recito o alfabeto mentalmente e nada! De repente, quando a conversa já mudou de rumo ou o interlocutor já se foi, eis que surge o nome ou palavra, como que zombando de mim...
Mas, do que é que eu estava falando mesmo?
Ah, sim, dos meus sessenta.
Claro que existem vantagens: pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa, talvez porque não são considerados pessoas inteiras), atendimento prioritário em filas exclusivas, sentar sem culpa nos bancos reservados do metrô e a TPM passou a significar Tranquilidade Pós-Menopausa.
Certamente o saldo é positivo, com muitas dúvidas e apenas uma certeza: tenho mais passado que futuro e vivo o presente intensamente, em minha nova condição de mulher muito sex...agenária!"
 Não é uma beleza de texto? Só quem está nesta faixa de idade entende-o bem. Você, com menos de, digamos, 50 anos, pode não achar interessante, está muito longe da sua realidade. Mas não é bem assim. "Num minuto" os 60 chegam. E a gente, realmente, fica de frente para o espelho tentando entender quem é aquela pessoa que nos olha...
  Aqui, o filme ao qual a autora se refere. Já o assisti e é a típica comédia romântica hollywoodiana, bem leve. Mark Rufallo vale o filme. Jennifer Garner é engraçadinha, casada com Ben Affleck, com quem tem 2 filhas.

27 comentários:

Beth/Lilás disse...

Ah, Lúcia, esse texto é mesmo tocante!
Quando eu o achei tive que mostrar e dividir com os amigos, afinal ela nos passa uma força, alegria e determinação incríveis e que poderão ajudar a muitas pessoas que possam estar com baixa estima pra vida.
um beijo carioca


Luciana disse...

Eu achei o texto belissimo, estou com 40 anos, mas entendo super bem.
Beijo

✿ chica disse...

Adorei esse texto e realmente temos um susto em nos ver com mais de sessenta e ainda não nos ver velhas ....

Incrível se pensarmos, no meu caso, farei 64, logo, dentro em breve, 70...Aí sim será que coisa nos pega?rsr Nem importa! Importa é poder chegar BEM.

beijos,fico feliz que a D.Alegria está de volta!!chica

Socorro Melo disse...

Oi, Lucia!

É um texto maravilhoso mesmo, bem produzido, e que retrata a realidade de uma forte e decidida. Fiz 50 anos no mês passado, e me identifiquei com muita coisa descrita pela autora. Faço-me as mesmas perguntas, e quando olho para trás, e me recordo do que vivi, sinto a sensação do dever cumprido. Porém, mesmo sabendo que já estou descendo pelo outro lado da parábola, tenho muitos projetos e muita vontade de viver, e de forma intensa, com ânimo, com alegria, tendo minhas cicatrizes como setas norteadoras.

Feliz de nós que chegamos aos 50, 60, 70...

Obrigada pelas palavras carinhosas, que deixou lá no Seguindo Minhas Pegadas, viu!

Grande abraço
Socorro Melo

Mauro S disse...

Oi Lúcia, muito lindo este texto, tenho 52 e caminho para os 60, e narrastes os teus momentos, que lindo!
Acho que nunca faria um assim, mas para quem falta memória, como escreves, às vezes esqueço também das coisas, foi bem lembrado.
Adorei este teu post.
Um beijão do Mauro

Mauro S disse...

Sobre o filme que citas, já o vi,a cho que todos já o vimos. Deus te abençoe e a todos que passarem por aqui.

ELIANA-Coisas Boas da Vida disse...

Belíssimo texto Lucia acabei de fazer 50 e já estou me perguntando quem é aquela no espelho!!rsrs
Grata pela partilha amei ler.
Beijo

Celia Rodrigues disse...

Oi, Lucia!
Passei para um abraço. Texto muito bom! Ainda estou um pouco longe dos 60, pouco mais que na metade do caminho pra ser mais exata, mas uma coisa tenho aprendido desde já com os sessentões e setentões que me cercam: nada como viver uma boa vida pra chegar a essa fase como verdadeira maturidade e serenidade.
Abraço!

Valéria disse...

Oi Lúcia!
Maravilha!
Antes achava que ao ter 50 tudo iria mudar, quando fiz vi que tudo continuava igual e que eu não era bem a velha que tinha medo de ser. Algumas vezes me assusto com o que vejo diante do espelho, olho para minhas filhas, me retrato nelas e penso como tudo passa rápido. no entanto, o importante mesmo é ter saúde e poder bem desfrutar da vida.
Adorei seu post! Me identifiquei muiito!rsss
Beijinhos!

Palavras Vagabundas disse...

Lucia,
engraçado como o sentimento dessa geração é tão parecido! Não conhecia esse texto, mas produzi um muito parecido, como você sabe!
Nós somo mais sex...agenarias!
bjs
Jussara

Brechique da Dodoca disse...

Oi, Lucia!
Esse texto é, de fato, muito realista. E lindo!
Bela escolha para postagem, chega em boa hora para todos, os que vivem a experiência e os que ainda vão passar por ela.
Para mim, sempre é motivo de alegria: não estou só no que vivo e penso (detesto solidão! rsssssss)!
Bjsssssssssssss, quérida, Deus a abençoa!

Clara disse...

Esse filme é uma delícia!

Bem, Lúcia, daqui a pouco eu já entro nos 47... e foi exatamente ontem que fiz 30. Que coisa!
Então, já que não tem jeito, vamos viver bem, então!

Um texto ótimo, digno de muitos prêmios!
Beijos

LuCintra disse...

Oi Lucia,

sei que ando sumida, mas estou tentando achar um tempinho pra passar no blog de cada amiga.

Eu amei o texto e eu amo esse filme! Nao sei explicar, mas esse filme me tocou de uma maneira estranha e apesar de eu nao ter chegado nos meus 40 ainda, eu entendo tudinho o que a autora desse texto falou. Mesmo estando nos 30, eu me vejo como a adolescente de 20 anos atras. Isso ficou bem forte quando revi meus amigos da epoca da ultima vez que fui ao Brasil. Ja fazia uns 20 anos que nao nos viamos, mas quando nos encontramos, parecia que tinha nos visto no dia anterior la no colegio. Foi meio surreal.

O tempo esta passando, as coisas estao mudando e isso me assusta muito! Muito mesmo. Pois por dentro, sou a mesma pessoa, eh so a parte de fora que notamos a diferenca...

Ja falei varias vezes que gostaria de conversar com pessoas mais velhas que sentem o mesmo, mas nunca consegui encontrar alguem pra fazer isso, mesmo ja colocando no blog algumas vezes. Minha mae entenderia, minha mae saberia conversar sobre isso comigo... Mas ela ja se foi...

Otimo post! bjos, Lu

ML disse...

Esse texto é maravilhoso, Lucia.
Como ela escreve bem, aliás "ótimo".

O filme eu vi, é engraçadíssimo, mas é sério: tanta ansiedade pra que?

bjnhssssssssssss

Georgia Aegerter disse...

Bom dia Lucia, que texto sublime. me lembro do post do espelho da Beth e ele mefez pensar sobre minhas condicoes de vida e o que desejo ainda fazer.

E agora você com este teu toque todo especial falando sobre esta idade para onde estamos caminhando. Para mim faltam apenas 9 anos e ta ai uma idade que me assusta: 60.

Te respondendo sobre o meu tetxto lá na Saia.

Lucia,

claro que pode e deve discordar, rs.

Imagina se todo mundo pensasse igual seria uma chatice.


Um grande beijo e um lindo final de semana

Anne Lieri disse...

Lucia,tinha visto no blog dela e adorei reler aqui!Mereceu mesmo ser premiada; um texto profundamente belo!bjs e bom final de semana!

She disse...

Oi minha querida! Que texto forte, tocante e muito emocionante, somos todos crianças tentando buscar a felicidade e a saúde. Lindo seu post, lindo seu texto. E quanto a esse filme "De repente 30" ele é ótimo, adorei!
Beijo, beijo mulher forte! ;)
She

Pepa disse...

Oi Lucia, é a Vi, achei lindo o texto, e com certeza ela mereceu o premio.
Já assisti o filme, para se distrair em uma tarde chuvosa e não pensar em como o tempo passa voando, é bom!
Fiquei muito feliz por teu carinho no meu aniversario,obrigada.
Beijos,Vi

pensandoemfamilia disse...

Lucia
Uma bela retrospectiva. Eu cheguei aos 50, aos 60 sem mesmo me dar conta. Hoje, 64 anos, completados no dia 20, vejo como num relâmpago a vida passa e estamos sempre atrás dos nossos sonhos. Acho que o que nos impulsiona é desejo de crescer como pessoa e continuar a sonhar.
bjs.
Adorei seu post

Ana disse...

Adorei reler!
Realmente temos que aproveitar cada minuto com a sabedoria de quem já viveu mais de meio século! Heheheh!
Beijão!

Taia Assunção disse...

Bela reflexão...mamãe está com 72, para mim, ela será sempre uma menina...anda de bicicleta, trabalha, é vaidosa, uma guerreira...além de tudo, vai casar-se. Estamos indo para o Brasil, serei madrinha e entrarei com o meu pai na igreja. A vida só termina, quando morremos. Sorte dos que chegarão lá, quero ser uma delas. Beijocas!

Celia disse...

Que maravilha de texto. Bj

Cissa Branco disse...

Lúcia,

Que texto fantástico, não tem como não refletir e se perguntar muitas coisas.
Quero agradecer a você por todo o carinho que sempre teve por mim, mas principalmente pelo comentário que você deixou lá no blog, não tenho palavras para agradecer, mas posso te afirmar que foi um dos que me deu forças para enfrentar algo tão estranho e doído, sei que se precisasse, você estaria ali, e a isso agradeço mais uma vez.
Obrigada e se precisar, estou aqui!
Beijos, ótima sexta e um final de semana abençoado

Luma Rosa disse...

Lembro de ter comentado esse texto na Beth e falado de uma amiga como exemplo. Passamos por tantas coisas na vida que não vemos o tempo passar. Dá para olhar para trás e recordar tudo, porém mais que isso é ter a disposição para querer fazer tudo de novo. Será que eu chego? (rs*) Beijus,

Ana Jardim disse...

Que post maravilhoso...Uma obra verdadeira prima!! Ainda não tenho sessenta mas pretendo chegar assim como você, bela por dentro e linda por fora!! Parabéns pelo belíssimo texto, me identifiquei bastante!!
bjus

ML disse...

Passei pra desejar um ótimo final de semana, Lucia!

bjnhsssssssssss

Gabi disse...

Adorei!!! Muito legal.
Estou com quase trinta e me sinto parcialmente assim...
Parabéns pelo texto!