Preguiça existencial

Não tenho uma opinião formada sobre tudo.
Prefiro ver com os olhos da alma, nem sempre com os da razão.
Embora a razão prevaleça na minha vida. Não abro mão das minhas convicções, mas posso abrir mão de ser intransigente. Sempre fui muito "a ferro e fogo", mas o tempo me abrandou.
Fato é que agora posso passar um dia sem arrumar minha cama, coisa inimaginável para mim.
Posso ficar sem varrer a casa diariamente, mesmo que isso me dê "gastura".
Posso abrir mão de ter a cozinha impecavelmente arrumada, com armários organizados, mas sem abrir mão da limpeza, esta, fundamental.

  O tempo nos mostra as mesmas coisas, de maneiras diferentes.
E o que me assustava antes, agora não me assusta mais, ou assusta menos.
Gosto da minha coerência e da minha maleabilidade.
Conviver com pessoas de idades diversas fez diferença em minha vida.
Desde que conheci a internet, principalmente há 6 anos, num blog, o mundo se abriu para mim.
Antes, computador era ferramenta de trabalho e consulta, apenas.
Com o blog conheci uma vida paralela.
Conheci gente legal, gente nem tão legal, vi blogs aparecendo e sumindo. Por vontade dos donos, simplesmente e alguns por morte dos donos.
Sempre vivi em meio a gente jovem, família grande, sempre adulto jovem,  adolescente, criança, em quantidade boa. Às vezes me pego pensando que sou tão jovem no espírito por causa dessa convivência.


Sou jovem, mas sou séria. Nasci com o senso de responsabilidade, de lealdade, de presteza, muito aguçados.
Fui pau pra toda obra, até onde deu.
Mas atualmente estou "jogando a toalha".
Quero sombra e água fresca. Quero passar meus dias lendo, passeando, vendo TV, ficando no computador.
A morte recente de uma amiga blogueira, a Nilce, conhecida da maioria dos que me leem, me fez perceber que não somos donos do tempo, que a hora que é para ser, será. 
E ficar remoendo passado, brigando para ter sempre razão, esquecendo que ser feliz é melhor, é a mensagem do que não deve ser feito.


 Passei dias escrevendo isso, tirando e colocando coisas que sou, mas que, afinal, só a mim interessam, não quero mais provar nada pra ninguém.
Hoje em dia uma discussão boba, sem briga, me desgasta por vários dias, fico pensando no que disse, que não deveria ter dito, que não precisava ter dito, que revela de mim o que levei anos para tirar.


 Não quero ter razão, não quero mais saber de tudo, não quero ficar o tempo todo antenada.
Não quero uma porção de coisas, mas continuo fazendo, falando.
Preguiça de  mim.
(Flores do sítio, menos a penúltima, a trepadeira Jade, casa do filho)

23 comentários:

✿ chica disse...

Lucia, com o tempo que passa podemos e devemos nos permitior mudanças nos nossos comportamenteos. Temos que nos dar tempo pra fazer o que queremos e não dias cheios de obrigações...

Queremos curtir, escrever, fotografar, além da família, claro. E podemos assim agir. Eu também penso que se não quero limpar a casa hoje, NINGUÉM vai fazer e amanhã faço. me dou pequenas concessões. Se não estou a fim de cozinhar: chamo um tele ou mando KIKO e Neno no buffet aqui pertinho e fico com frutas e tranquilidade,rs...

Assim vamos! Adorei te ler e ver essas fotos lindíssimas! beijos,lindo fds!

Beth/Lilás disse...

Querida Lúcia, estamos no mesmo barco, quase na mesma sintonia, já não precisamos provar nada pra ninguém, somos o que somos e o que fazemos e falamos e ponto.
A morte repentina de uma pessoa que conhecemos, nos abala e ao mesmo tempo, nos reposiciona diante da vida. Vemos que a finitude é uma realidade e enxergamos cada vez mais longe e claro, apesar de que nossas almas enxergam diferente, mas enquanto temos corpo e nos movemos por ele, devemos também dar prazer a ele e nesta altura da vida, os prazeres são esses, mais calmos, mais sutis, relaxantes.
Muito lindas as orquídeas do sítio e esta azul vi de perto noutro dia lá em Itaipava, um espanto!
beijão carioca e bom findi.

Marli Soares Borges disse...

Lucia, é bem assim, a gente muda, nos damos conta de que realmente, temos mais passado que futuro. E nessa ótica tudo tem mesmo que mudar. Também me concedo mais prazeres, deixo0 de fazer pequenas coisas que antes eram inimagináveis, varrer, lavar roupa, arrumar isso e aquilo, coisas que ninguém nota, só a gente. Enfim, temos que aprender a viver, puxa vida, está na hora, é não? Também ando com preguiça de fazer coisas corriqueiras e, quer saber? Não faço. Eu e meu marido andamos nessa vibe, cuidar do necessário e no mais, fazer o que nos apraz. Amei o post, gosto muito de ler os teus textos, impregnados de vivências. Bjssssssssss

Clara Lúcia disse...

Lúcia, somos bem parecidas, menos na questão do séria. Sou bem palhaça mesmo, besta e falo besteira pra caramba.
Engraçado que hoje, dia de faxina, parei e olhei pra minha casa... um verdadeiro furacão de sujeira! Impensável nisso há uns 20 anos. Antes de meus filhos nascerem, se tivesse um fio de cabelo no chão já era motivo pra me tirar o sono. Sempre fui super hiper organizada, mas com o tempo esculachei. Sei que a casa vai ficar limpa só hoje, amanhã vai ter bagunça no balcão, ração dos cachorros espalhada, pingos d'água na cozinha, pelos por toda a casa, enfim, casa onde mora gente normal. Relaxei mesmo... desencanei!
Esses dias tendo um conversa com meu ex, que é muito grosseiro e sempre me colocou pra baixo, ele praticamente me chamou de burra por ter escolhido a profissão errada.. enfim, uma mentira, pois qdo me formei seria bem-sucedida se não fosse a implicância dele comigo, as brigas, a convivência insuportável. Então, pra evitar toda essa tortura diária, abri mão. Simplesmente me anulei pra não ter que brigar. E ele ainda ri da minha cara... Mas sabe o que eu respondi? Nada!
Isso ainda me machuca muito, mas fiquei contente de ter superado as palavras maldosas dele e nem dar mais bola. Eu sei que é mentira e isso me basta. Não preciso provar nada pra ninguém e só eu sei o que passei esse tempo todo.
Fiquei aliviada mesmo.
Não me importo mais com as pessoas, com o que elas falam...
Sempre fui carinhosa e prestativa, mas desliguei um pouco, parei de me preocupar tanto... passei a me preocupar comigo mesma. Isso fez uma diferença enorme na minha vida pois percebi que muitos só me sugaram o tempo todo e qdo eu precisava nem que fosse de um abraço, um ouvido, nunca tinha. E ainda não tenho, mas já me acostumei em viver sozinha. Mas não me sinto solitária. Apenas vivo sozinha, fazendo o que eu quero, a hora que eu quero e com quem eu quero. Meus filhos sempre por perto, meus cachorros, meu computador, meu rádio, meus livros, meus contos... bem egoísta mesmo, tudo meu! rsrsrs
E feliz da vida!

Eu fiquei em choque com a morte da Nilce... me senti tão impotente, acho que poderia ter conversado mais com ela, ouvido mais, não sei... mas aconteceu. Infelizmente aconteceu.

Pronto, escrevi um conto nos comentários!
Beijos!!!

Maria Izabel Viégas disse...

Lúcia querida,
quanta delicadeza nestas flores belíssimas estrategicamente colocadas entre as suas confissões - reflexões. Confissões pois que vc fala de si, nos abre o coração.
Como se isso fosse preciso.
Amiga, acho vc tão transparente até no oculto. Tão sincera. Tão honesta, íntegra. E é tão bom saber-se sua amiga. Ser escolhida por vc é uma honra, menina.
E são reflexões que, na verdade, todas nós já vivenciamos de algum modo.
Não sei amiga se é porque já atingimos a Idade da razão. Aquela em que sabemos bem quem somos e não nos preocupamos muito com a opinião de quem não nos interessa.
Bem, eu passei a ser muito seletiva quanto a relacionamentos.
Sempre passei uma imagem festeira e eu não sou!
Sou meio Maria da Toca. Amo ficar com meus filhos, mas respeito a individualidade deles. Mesmo que não viva na casa deles, estou sempre plugada. Amo-os profundamente, mas sei que são casados e que a família deles foi começada. Uma nova Clã iniciada.
Eles sabem que desço aos Ínferos por eles e por quem amo. E confiam em mim.
Aprendi a me desligar. A deixar que eles resolvessem a vida deles. Eu e o pai somos como um porto seguro. Isso para uma mãe que nem deixava ninguém fazer mamadeira para eles, nossa, foi um salto quântico! rs
Mas não faço e nem sigo aquele ritual de ter que ir ás festinhas das famílias das esposas. Gosto de todos. Mas vou quando eu e Sergio assim quisermos.
Minha infância foi muito complicada e eu, era absolutamente feliz mas uma menina muito séria.
E fazia o que os outros queriam. Agora, nem pensar!
Sou sim, festiva pois tenho em mim uma festa, um agradecimento a Deus por não ter perdido no meio do caminho a minha alegria. por ser forte o suficiente para não me intimidar, principalmente, pela primeira parte da vida - em criança - e ter feito as escolhas certas.
Eu fiz o meu destino. E não abro mão para nada nem ninguém.
Aprendi muito com meus filhos.
creio que além da Educação - meu trabalho - que nem foi trabalho, foi prazer, ter meu marido e filhos e agora netos foi minha meta. E eu que achava que não queria casar para poder ser livre!
Mas eu sou Livre! Uma liberdade que foi sempre permeada de muito trabalho porque eu sempre gostei de assumir a condução de minha casa. Nossos filhos foram educados pelos nossos conceitos e não pelo que os outros faziam. E eles aprenderam.
Nossa, amiga, você fez todo mundo se abrir. risos.
Amei seu post. E amo seu blogue. Ele é chique, fino, elegante, não é Sem Medida. É Na Medida certa da grande Lucia Soares!
Sou sua fã, menina!
Beijos!

angela disse...

querida Lúcia, acho que o "relaxar" com o nos incomodava tanto, chega com doença, maturidade e perdas, já fui impossível com certas coisas, hj estou "suave", aceito copos sobre pia e muitas vezes me pego argumentando comigo, depois eu faço e pronto, quero mais é viver, se possível bem e sem atropelos os próximos anos. bj enorme e sempre grata pelo seu carinho

ML disse...

Sabe que eu também, de um tempo pra cá (recente, deve fazer uns 6 meses) tb estou procurando (batalhando) para ficar mais "light", Lúcia.
E, sinceramente, me sinto bem melhor: hoje, já me dou o direito de "levar desaforo pra casa", porque às vezes, o que parece um absurdo, no dia seguinte a gente "relativiza" (se a palavra existe não sei, deixa pra lá, gostei : > )
com muita facilidade no dia seguinte.

E não é que eu não diga o que quero: só estou fazendo de um jeito diferente, sem tanta "ira". Estou curtindo muito! Espero que euzinha light dure para sempre, ou que, pelo menos, seja eterno enquanto dure : > )))))

bjnhs ótimo final de semana, Querida!

ML disse...

PS: AMEI as FOTOS!

Lúcia Soares disse...

Liliane Rocha Carvalho - comentou pelo Facebook e eu trouxe para cá:

"Imagino que você passou por muitas fases na vida, igualzinho as flores.
Pia suja, cama por fazer, nossa, como isso me tortura.
E queria ser madura logo, e não consigo.
Mas vendo você e tantas amigas legais vou me animando a não desanimar neste processo de crescer.
Mas dói. Me permitir ser preguiçosa dói
Mas vamos aprendendo, né.
Quando estou muito triste lembro da Nilce também e penso que preciso não permitir que a angústia fique grande demais.
Aprendi muito aqui.
bjs.
Beijinho com carinho

Márcia Balz disse...

Pois é né Lúcia, a juventude é um período de buscas e incertezas. Estamos ainda impregnados de nossos, pais. A maturidade nos traz conforto, liberdades, independência. Nossos valores mudam porque o mundo muda e nós transitamos por isso com mais serenidade, menos pressão.
Sorrio em pensar nos jovens que não imaginam que só se é feliz muito mais tarde do que eles imaginam. Bjim!

Heloísa disse...

Lucia,
Somos tão parecidas!
Até na seriedade.
Mas não consigo me abrir tanto quanto você. Talvez por ser de uma época em que os sentimentos não eram expostos.
Você colocou tudo muito bem, e ainda intercalou com orquídeas maravilhosas.
Beijos.

Neli Alves disse...

Texto lindo, fotos maravilhosas. Estou ficando como você. Só curtindo meus artesanatos, o blog quando der e os netos a toda hora que for possível -eles não moram comigo, uma mora em outro Estado.
No mais, oração, tranquilidade, relaxamento, no stress.
Bjks. Neli - Iaiá Arteira

Ana disse...

Identificação total!
Já fui muito séria, muito certinha, muito responsável, muito velha!
Daí fui mudando, relaxando, adolescendo, até! Hahahah!
Hoje minhas prioridades mudaram. Viajo muito, dou muita risada, saio com meus amigos, namoro...
Ainda amo minha casa e gosto de cuidar dela. Mas não me estresso tanto com limpeza e organização.
A maturidade há de servir para alguma coisa, né?
Obrigada por me traduzir, neste teu texto, tão verdadeiro!
Sou tua fã! Sempre!
Grande beijo!

semibarbosa disse...

Maravilhosa reflexão, Lúcia!
Eu nasci séria e fui relaxando durante a vida,tipo um Benjamim Button,hehehe.Mas tive a minha fase de impaciência,de querer tudo prá ontem.E cobrava isso de mim e dos outros.
Ser mãe de Carol,com todas as suas dificuldades e limitações,ensinou-me a desacelerar,a viver um dia de cada vez,a valorizar pequenas coisas e não ter muitas expectativas.
Bem melhor assim,garanto!

Gina disse...

Lúcia,
O tempo vai fazendo isso com a gente. A casa, que é nosso bem-estar, não deve nos escravizar. Precisamos nos policiar para não embarcar nessa cobrança demasiada por limpeza e perfeição, em detrimento de coisas mais importantes.
Claro que notei as lindas flores!
Ainda não alcancei esse "ideal", mas estou tentando...
Bjs.

Sheyla - DMulheres disse...

Lucia,
Me cobro muito assim como vc... uma cama desfeita e uma casa sem estar varrida, era para mim um martírio. Hoje, sei e aprendi, que precisamos sempre mudar nossos conceitos sempre. Vc está certa em querer ficar de bobeira e fazer somente aquilo que te agrada. Peras repentinas sempre nos deixam pensativas e isso é bom para ver que cada segundo em nossa vida é precioso demais para ser jogado fora.

Mil bjos nesse coração lindo, Sheyla.

Lulú disse...


Olá Lúcia.
Um prazer grande ter você aqui entre nós, novamente.
No seu texto tem muito de mim, hoje em dia. Mudamos muito com o passar dos anos, felizmente. Ah! também gosto de conviver com pessoas mais novas que eu, porque elas têm muito a me ensinar.
Seja bem vinda!
Beijos.
Maria Luiza (Lulú)

Luma Rosa disse...

Oi, Lúcia!
Tudo isso que expôs é sabedoria que só se adquiri com experiência de vida. Com ela aprendemos a relevar, a não querer levar tudo à ferro e fogo e principalmente, ficar quietos em momentos que a vontade é falar, falar, falar... diante de uma provocação.
Não fique com preguiça de você. Eu prefiro que você sinta saudade de você. Apreciar a natureza é um bom exercício!!
Boa semana!!
Beijus,

Bia Jubiart disse...

Lúcia, delícia de reflexão!
Deu até vontade de "fazer" uma preguicinha rsrsrss, tudo isto que vc precisamente detalhou, pode ser a plenitude da maturidade, é SER e VIVER intensamente o essencial de forma consciente.
Tenho também saudades dos escritos dela...
A vida segue...
Bjos e ternuras.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Cá estou amiga. Não sabia.
Gostei muito do seu blogue.
Este último post o que diz eu
concordo em absoluto consigo.
Com a idade vamos acalmando
nalgumas coisas e desvalorizando
outras.Também se chega há situação
de já não querermos provar nada
a ninguém.Eu tenho 67 anos, tomara
eu conseguir gerir todas as minhas
responsabilidades o melhor que consiga.
Bj.
Irene Alves(voltarei)

Palavras Vagabundas disse...

Lucia, concordo com não tenho que provar nada a mais ninguém! Não sei se já lhe disse isso, mas nos últimos anos de trabalho formal, eu tinha um quadro em minha sala que dizia: 'Não quero ter razão quero ser feliz!", pauto minha vida com esse pensamento e tem sido bem bacana viver sem chateação.
Arrumar cama, armário ou tirar pó, pode e deve sim ficar para amanhã, risos
beijão
Jussara

Blog da Pandinha disse...

Sabe Lucia, acho que nao somos nada e nem ninguem. Quando adolescente, li no livro Feliz Ano Velho, uma frase que dizia mais ou menos assim: "a vida dura poucos segundos....a historia da humanidade se fara com ou sem a nossa presenca....a morte eh apenas um gd sonho, sem despertador para interromper...". Desde entao, sempre que me vejo aflita, lembro de que a vida eh mais efemera do que podemos imaginar...afinal, nada acaba sem explicacao alguma mais rapido que a vida! Que a Nilce esteja nos bracos do pai e que as pessoas aprendam a ser livres de si mesmas! Beijos

Cristina Pavani disse...

Oi, Lucinha!
Te li ao longo da semana, mas cadê tempo para comentar?
Suas belas reflexões filosóficas carecem um pouco de atenção, não dá para apenas "jogar" palavras aqui e esquecer seu texto.
Estou voltando agora...
Sabe, por trabalhar desde os 13 anos (em tempo mais que integral), desenvolvi um pragmatismo forte. E quando comecei a trabalhar com crianças, a mais de 20 anos, tive que ser maleável, tolerante, paciente ao extremo, pois cada qual reage diferentemente aos comandos de um professor.
Alunos que acompanham fielmente, que desdenham, que fazem às avessas, que nada fazem, que trazem sempre algo mais para enriquecer a aula...
Quanto ao tempo, ah, o tempo! Tenho que otimizá-lo sempre: pelo fato de não ter a quantidade, procuro manter qualidade. Divido-o em porções que possam contemplar todas as etapas de minhas semanas.

Grande abraço!